Quando você pensa em metáfora, qual é a primeira coisa que vem à mente? Provavelmente aulas de literatura, poesia ou figuras de linguagem usadas apenas para enfeitar discursos (“ornatus”), certo? E se eu te disser que as metáforas são, na verdade, a base do seu entendimento do mundo?
É exatamente isso que os linguistas e filósofos George Lakoff e Mark Johnson defendem no influente e clássico livro “Metaphors We Live By” (Metáforas da Vida Cotidiana), publicado em 1980. A obra revolucionou a forma como compreendemos a linguagem e como relacionamos as nossas próprias experiências com o mundo ao nosso redor.
Se as metáforas são a lente principal pela qual o nosso cérebro estrutura e enxerga o mundo, o que acontece quando aplicamos essa mesma lente a conceitos altamente abstratos, como Direito e Justiça?
Como Lakoff e Johnson explicam, “nós usamos as nossas experiências físicas e sociais mais palpáveis para conseguir entender assuntos que são complexos e intangíveis”. A Justiça não tem forma, cor ou tamanho. Portanto, ela é um dos campos que mais depende de metáforas para funcionar no nosso dia a dia.
O Peso da Lei e a Batalha no Tribunal
Pensemos nas imagens do cotidiano. Falamos sobre o peso da lei, adotamos a balança como símbolo do equilíbrio jurídico e afirmamos que a justiça é cega. Todas essas são maneiras metafóricas de transformar conceitos invisíveis — como a imparcialidade e a equidade — em sensações físicas de peso, simetria e privação de visão.
O ponto crucial da teoria de “Metaphors We Live By” é que as metáforas não servem apenas para descrever as coisas de um jeito criativo; “elas moldam ativamente as nossas percepções e ações sem que sequer percebamos”. O grande mérito trazido por Lakoff e Johnson foi demonstrar que a metáfora não é apenas uma ferramenta discursiva, poética ou artística. Segundo os autores, a metáfora é um mecanismo fundamental da nossa mente.
Eles argumentam que a essência da metáfora é, basicamente, a capacidade de compreender e vivenciar um tipo de coisa em termos de outra. Nós utilizamos o que já sabemos sobre a nossa vivência física e social para conseguir entender uma infinidade de outros assuntos. Isso nos ajuda a estruturar e comunicar vivências que seriam complexas demais para serem transmitidas de forma puramente literal.
Um excelente exemplo disso é a estruturação do Tribunal do Júri como uma Guerra – Ou, de modo menos belicista, como um Jogo. Na nossa cultura, falamos em atacar um argumento, derrubar a testemunha, batalha judicial e vencer o caso. Se os nossos conceitos governam o nosso funcionamento cotidiano, encarar um tribunal primariamente como um campo de batalha significa que advogados e partes focarão em derrotar o oponente, muitas vezes deixando a busca pela verdade em segundo plano. A metáfora dita a atitude e consagra sociologicamente o processo adversarial.
A Violência Legal e as Nossas Palavras
Esse tipo de análise demonstra que o sistema de justiça pode usar metáforas para justificar o uso da força e de punições severas. Quando a linguagem jurídica passa a tratar a criminalidade como uma doença, um câncer na sociedade, ou descreve réus como feras, o Estado consegue justificar de forma muito mais natural a exclusão, a supressão e a violência institucionalizada.
Some isso ao racismo estrutural, à cegueira ética e ao uso de estereótipos na explicação – eventualmente, mesmo nas justificações – de decisões e teremos um caso pronto de injustiça. Há, assumido o papel das metáforas no processo cognitivo, necessidade de se apurar a análise jurídica com matizes de prudência.
O impacto disso no nosso dia a dia é imenso e inescapável. Os conceitos que governam nossos pensamentos não ficam restritos ao intelecto; eles governam o nosso funcionamento diário, até nos detalhes mais mundanos. No fim das contas, o nosso próprio sistema conceitual é amplamente metafórico.
Conclusão: As Leis Pelas Quais Vivemos
O Direito está longe de ser feito apenas de regras literais escritas em livros antigos. Ele é construído sobre um alicerce invisível de metáforas que estruturam diretamente o que percebemos e como nos relacionamos com as outras pessoas nos momentos mais críticos da vida em sociedade.
Compreender as metáforas pelas quais vivemos dentro das delegacias e dos tribunais é o primeiro passo para analisar de forma crítica o próprio sistema legal. Afinal, as palavras que escolhemos para definir a justiça podem determinar, na prática, se ela será uma balança que acolhe ou uma espada que fere.
Metaforizando musicalmente, https://open.spotify.com/track/2xmLBQM21pMWXI0gVkA7IV?si=cPP7tEwYQoesvta5CBOn0w.
Em vídeo, https://www.youtube.com/watch?v=lYcQcwUfo8c.
Em texto, metaphors we live by – Pesquisa Google.
